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PF envia celulares de Daniel Vorcaro para EUA e Israel após rejeitar delação

A Polícia Federal vai enviar nove celulares de Daniel Vorcaro para perícia nos Estados Unidos e em Israel. O objetivo é recuperar mensagens deletadas pelo banqueiro do Banco Master antes ou durante as investigações. Quando inteligência americana e israelense entrar em cena, o que Vorcaro achou que havia apagado pode voltar à tona — e mudar completamente o tamanho deste escândalo.

A decisão de enviar os aparelhos ao exterior ocorre depois que a proposta inicial de delação premiada de Vorcaro foi rejeitada pela PF e pela PGR por ser insuficiente. Sem informações inéditas, sem nomes centrais e sem provas que avançassem o inquérito além do que os investigadores já sabiam, o diagnóstico foi preciso: Vorcaro estava contando apenas o que acreditava que a polícia já tinha. A estratégia clássica de quem quer proteger o que realmente importa. Os investigadores já sinalizaram que, se ele não entregar algo substancialmente melhor, o acordo não avança. E mesmo que não entregue, os celulares podem falar por ele.

Para entender o tamanho do que está sendo investigado, é preciso entender o negócio de Vorcaro. O Banco Master captava dinheiro de investidores comuns prometendo até 140% do CDI — rentabilidade que nenhum banco saudável consegue pagar de forma sustentável — e usava esses recursos para comprar precatórios, dívidas judiciais do governo, com desconto. A lógica era simples: comprar barato, esperar o governo pagar o valor integral, embolsar a diferença. Por anos funcionou. Até o esquema colapsar por dentro.

Mas existe uma camada ainda mais profunda que passou despercebida pela maioria das pessoas. Em 2021, o governo Bolsonaro e o Congresso aprovaram a PEC dos Precatórios, criando um teto anual de pagamento e escalonando o restante até 2027 para evitar que o estoque acumulado de dívidas judiciais explodisse o orçamento de uma vez. Quando Lula chegou ao poder em 2023, ignorou o teto e abriu crédito extraordinário de R$ 93,1 bilhões para quitar tudo de uma vez — sem aprovação orçamentária convencional, com aval do STF para passar por fora das metas fiscais. O déficit primário de 2023 saltou de cerca de R$ 138 bilhões para R$ 230,5 bilhões.

O governo vendeu a operação como responsabilidade fiscal: “estamos pagando o que Bolsonaro caloteou.” O que ficou para trás foi um rombo fiscal real, um mercado de precatórios turbinado com liquidez repentina de R$ 93 bilhões e as condições perfeitas para o esquema que a PF investiga agora.

Com toda essa liquidez entrando no mercado de precatórios de uma vez, juízes emitiram precatórios inválidos, fundos compraram créditos ilegítimos e R$ 10,9 bilhões em precatórios irregulares já foram cancelados pela Justiça. A mesma divisão da PF que investiga o Banco Master agora apura os juízes, os fundos e as empresas ligadas a esse mercado. Ciro Gomes chamou de maior escândalo que o Mensalão e o Petrolão. Nikolas Ferreira levou ao Ministério Público. A mídia praticamente ignorou.

Tribunais e poder judiciário

O escândalo do Banco Master não é um caso isolado. É a convergência de três camadas que se alimentam mutuamente. A primeira é a  política fiscal: Bolsonaro segurou os precatórios, Lula pagou R$ 93 bilhões de uma vez, ambas as decisões com consequências reais sobre a dívida pública. A segunda é a fraude estrutural: juízes emitiram precatórios inválidos, fundos compraram créditos ilegítimos, R$ 10,9 bilhões foram cancelados e a PF investiga. A terceira é o colapso do Master: um banco construído sobre precatórios e promessas de 140% do CDI que desabou e deixou investidores de varejo e fundos de previdência de estados expostos a um risco que não conseguiam dimensionar.

Os nove celulares de Vorcaro vão para os EUA e Israel. A inteligência americana e israelense vai tentar recuperar o que foi deletado. E quando abrirem, o que vier à tona pode mudar completamente o tamanho deste escândalo. Esse caso está no começo, não no fim