Moraes quer saber se Bolsonaro deseja conceder entrevistas
Nenhum outro preso no país jamais teve sua fala submetida a tamanha tutela judicial
O ministro Alexandre de Moraes deu mais um passo no controle absoluto que exerce sobre Jair Bolsonaro. Nesta terça-feira (2), o magistrado determinou que os advogados do ex-presidente informem, no prazo de cinco dias, se Bolsonaro tem interesse em conceder entrevistas à imprensa.
Não se trata de autorização para entrada de jornalistas na PF — trata-se de saber se o réu “deseja falar”.
É uma situação inédita: um ministro do Supremo perguntando oficialmente se um preso quer conceder entrevistas, para só então decidir se permitirá ou não.
Nenhum outro preso no país — político ou não — jamais teve sua fala submetida a tamanha tutela judicial.
O caso começou quando o portal Conexão Política solicitou, um dia após a prisão, autorização ao STF para entrevistar Bolsonaro.
Em vez de o pedido ser analisado pela administração da PF — como ocorre com qualquer outro preso — Moraes centralizou o processo e emitiu uma ordem insólita:
“Intimem-se os advogados para informar se o réu tem interesse em realizar a entrevista.”
O ministro estendeu a ordem a pelo menos dez veículos de comunicação que fizeram o mesmo pedido.
Agora, mesmo que a imprensa queira entrevistar Bolsonaro, e mesmo que Bolsonaro queira falar, ambos dependem da autorização final do ministro.
A exigência de Moraes coloca Bolsonaro em uma categoria jurídica inexistente:
a de réu cujo direito de expressão depende de supervisão judicial prévia.
Presos comuns falam.
Condenados da Lava Jato falaram.
José Dirceu falou.
Roberto Jefferson falou.
Presos perigosos falam.
Até chefes do crime organizado enviam recados à imprensa por advogados.
Bolsonaro, porém, só poderá falar se Moraes quiser.
O STF virou não apenas o julgador do ex-presidente — mas também o guardião de sua voz.
A determinação do ministro transforma um ato simples — “quero dar entrevista” ou “não quero” — em uma manifestação que deve ser oficialmente comunicada ao Supremo, registrada em autos e avaliada pelo magistrado.
O ex-presidente está sendo tratado como alguém que:
- não pode decidir sozinho se fala,
- não pode se manifestar publicamente sem aviso prévio,
- e tem sua comunicação com a imprensa regulada como se fosse ato de risco institucional.
É um controle sem paralelo no direito brasileiro.
A decisão não é apenas burocrática.
É simbólica.
Mostra que a perseguição jurídica contra Bolsonaro chegou ao ponto em que até sua disposição em conceder entrevistas foi capturada pelo STF, convertida em procedimento oficial e condicionada à deliberação de Moraes.
A prisão já restringe a liberdade física.
Agora, por decisão ministerial, restringe-se também a liberdade de expressão, o que aproxima o país de um modelo perigoso em que um ministro define quando e como um opositor político pode falar.

