Moraes pede ‘humildade’ ao Judiciário enquanto desqualifica críticos
Em mais um pronunciamento marcado por contradições, o ministro Alexandre de Moraes afirmou nesta terça-feira (2) que o Poder Judiciário “precisa ter humildade para aceitar críticas válidas”. A declaração foi feita durante evento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
No mesmo discurso, porém, Moraes responsabilizou “grupos econômicos poderosos”, “inimigos do Judiciário” e influenciadores digitais por ataques à Corte — esvaziando, na prática, sua própria defesa da importância das críticas.
“Temos que ter a humildade de aceitar críticas válidas”, disse Moraes, antes de afirmar que parte dessas críticas seria movida por interesses de grupos que defenderiam “igualdade e liberdade apenas para si próprios”.
Logo após falar em humildade, Moraes sustentou que o Judiciário é alvo de uma ofensiva coordenada por grupos econômicos “muito fortes e integrados internacionalmente”, que estariam reagindo ao fortalecimento institucional do Supremo.
Segundo ele, esses grupos enxergariam igualdade e liberdade como privilégios exclusivos e, por isso, atacariam o STF. A fala repete uma narrativa recorrente na Corte, segundo a qual críticas duras ao Judiciário não seriam manifestações legítimas, mas movimentos orquestrados para “desestabilizar instituições”.
Moraes também ironizou influenciadores que comentam decisões da Suprema Corte, dizendo que “não sabem nem a composição do tribunal”, mas mesmo assim teriam milhões de seguidores e influência pública.
A crítica acompanha outro padrão de discurso: a tentativa de deslegitimar vozes externas ao meio jurídico que contestam decisões da Corte.
O ministro ainda declarou que parte da mídia supostamente independente teria embarcado em opiniões “refletidas” desses grupos, contribuindo para um ambiente que, segundo ele, coloca o Judiciário “sob ataque”.
No mesmo evento, Alexandre de Moraes aproveitou para defender a volta de benefícios financeiros a juízes — entre eles o adicional por tempo de serviço (ATS), conhecido como quinquênio.
A proposta é amplamente criticada por especialistas, uma vez que amplia gastos públicos e recria privilégios eliminados pela Reforma Administrativa, tudo em um contexto de forte pressão sobre o orçamento federal.
O discurso exibiu um contraste gritante:
- Moraes afirma que o Judiciário deve ouvir críticas;
- mas ao mesmo tempo afirma que críticos são inimigos ricos, influenciadores ignorantes ou agentes internacionais.
A mensagem implícita é clara: crítica só vale quando não incomoda o Supremo.
Enquanto isso, cresce na sociedade uma percepção de distanciamento entre a Corte e a população — especialmente após decisões que ampliam poderes do STF e limitam a atuação de outros Poderes, como a recente liminar de Gilmar Mendes restringindo pedidos de impeachment contra ministros.

