Estiagem no Amazonas deixa 29 aldeias indígenas isoladas e equipe de saúde não consegue chegar
Baixa dos rios compromete acesso de equipes de saúde a comunidades atendidas pelo DSEI Parintins; uma aldeia em Maués está isolada e moradores precisam caminhar 1h30 para receber atendimento
A estiagem já afeta o acesso a 29 das 154 aldeias atendidas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Parintins, no Amazonas e no Pará. O número representa 18,8% das comunidades monitoradas e corresponde a uma população estimada de 3.150 indígenas. Em uma das localidades, em Maués (AM), os moradores estão isolados e precisam caminhar cerca de 1h30 até outra aldeia para ter acesso aos serviços de saúde.
Os dados foram divulgados no boletim epidemiológico do DSEI Parintins, publicado em 17 de setembro, a partir do monitoramento semanal realizado pelas equipes que atuam nos territórios. O distrito atende aproximadamente 17.890 indígenas distribuídos em 154 aldeias, 12 polos-base e nove municípios dos estados do Amazonas e do Pará.
Baixa dos rios dificulta acesso das equipes
Das 29 aldeias afetadas, 20 apresentam comprometimento parcial do acesso. A navegação ainda é possível, mas apenas com embarcações de pequeno porte, como rabetas e barcos equipados com motores de 15 HP.
Em outras oito aldeias, a situação é considerada severamente comprometida. A redução do nível dos rios dificulta ou impede a entrada das embarcações normalmente utilizadas pelas equipes de saúde. Nesses casos, o DSEI avalia a necessidade de apoio aéreo para garantir o deslocamento dos profissionais e a continuidade dos atendimentos. Os impactos foram identificados nos municípios de Maués e Barreirinha, no Amazonas, e Aveiro, no Pará.
Uma das situações mais críticas ocorre na aldeia Lírio do Vale, pertencente ao Polo-Base Vila Nova II, em Maués. A comunidade está sem condições regulares de acesso para que as equipes de saúde cheguem diretamente ao território. Por isso, os moradores precisam percorrer cerca de 1h30 a pé até a aldeia Terra Nova, onde recebem atendimento.
O DSEI Parintins também mantém contato com o Agente Indígena de Saúde (AIS) da comunidade para viabilizar a limpeza de uma área que possa servir como ponto de pouso para aeronaves. A medida é estudada como alternativa para permitir o deslocamento das equipes até a aldeia e manter a assistência à população.
Monitoramento dos rios começou em abril
O acompanhamento das condições de acesso às aldeias é realizado pelas próprias equipes que atuam nas comunidades. Segundo Tatiana Rodrigues, enfermeira do Núcleo 1 de Monitoramento de Indicadores e Situações de Saúde do DSEI Parintins, o registro das condições dos rios passou a ser feito semanalmente desde abril.
Os profissionais informam o nível dos rios, as condições de navegabilidade e as possibilidades de acesso às comunidades. As informações são integradas ao formulário utilizado para acompanhar doenças, agravos e outras situações de saúde nos territórios.
“Quando a gente tem uma aldeia impactada com o nível do rio que não permite chegar mais uma lancha maior, eles já começam a nos informar, e vamos traçando as estratégias para acessar aquela aldeia de outras formas”, explica Tatiana.
De acordo com a enfermeira, o acompanhamento permite identificar com antecedência as comunidades que podem precisar de alternativas de transporte e adaptar o planejamento das ações de saúde conforme o avanço da estiagem.
Estiagem ameaça segurança alimentar
Os efeitos da seca não se limitam ao deslocamento das equipes. A baixa dos rios também interfere na rotina das comunidades e pode comprometer o acesso a alimentos e outros insumos.
Para enfrentar a situação, o DSEI Parintins articula ações com prefeituras do Baixo Amazonas, Defesa Civil, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Ministério da Saúde e Secretaria de Saúde Indígena (SESAI).
As articulações buscam viabilizar o envio de insumos alimentares às comunidades mais afetadas enquanto as condições de transporte permanecem prejudicadas.
Apoio aéreo é avaliado
Com a redução do nível dos rios, a logística de atendimento precisa ser adaptada conforme as condições de cada aldeia. Onde as embarcações não conseguem mais chegar, o transporte aéreo é considerado uma alternativa para manter o atendimento das equipes de saúde.
O monitoramento semanal permite acompanhar a evolução da estiagem e identificar as localidades que apresentam maior dificuldade de acesso. A estratégia busca reduzir o risco de interrupção da assistência e direcionar recursos para as comunidades que enfrentam os impactos mais intensos da seca.
Relação das aldeias afetadas
*Com informações da assessoria

