Política

Brasil bate recorde de dívidas em recuperação judicial e ultrapassa R$ 180 bilhões

O Brasil atingiu o maior volume de sua história de dívidas submetidas a processos de recuperação judicial e extrajudicial. O montante já supera R$ 180 bilhões e expõe uma escalada de empresas que estão recorrendo à Justiça para renegociar passivos e preservar o caixa. O movimento deixou de atingir casos isolados e passou a reunir grandes grupos de setores completamente diferentes da economia brasileira.

A dimensão do problema aparece também na quantidade de companhias em dificuldade. Ao fim do primeiro semestre, 6.341 empresas estavam com recuperação judicial ativa em uma base que exclui microempresas, filiais e negócios inativos, maior patamar da série histórica do Monitor RGF-BIZDOC. Em 2025, o país já havia registrado 2.466 novos pedidos de recuperação judicial, alta de 13% e recorde anual. Agora, 2026 acrescenta à lista empresas de grande porte e dívidas de dezenas de bilhões de reais.

A entrada da Braskem nessa conta ampliou consideravelmente o volume. A maior petroquímica do país protocolou na segunda-feira (24) recuperação extrajudicial para reestruturar US$ 10,9 bilhões, aproximadamente R$ 56 bilhões. A companhia conseguiu apoio preliminar de credores que representam 39,6% dos débitos abrangidos pelo plano e pretende inicialmente postergar pagamentos de principal e juros. Fornecedores, funcionários e clientes não estão incluídos na reestruturação e continuam recebendo normalmente, segundo a empresa.

A Braskem não está sozinha. A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial carregando R$ 17,3 bilhões em dívidas e cerca de 28 mil credores. Outros grandes grupos também recorreram recentemente a mecanismos de reestruturação, ampliando um quadro que já vinha sendo formado por companhias como Americanas, Light, InterCement, Ambipar e AgroGalaxy. Em 2026, nomes como Tok&Stok, Marabraz, Casa & Vídeo e Coteminas também engrossaram a lista.

Os motivos que levaram cada companhia à crise são diferentes. A Braskem enfrenta, além do endividamento, o pesado passivo decorrente do desastre ambiental em Maceió e uma crise global da petroquímica, marcada por excesso de oferta e pressão sobre margens. A Casas Bahia enfrenta dificuldades próprias do varejo, endividamento e mudanças no comportamento do consumidor. Americanas carregou as consequências de um escândalo contábil. Portanto, o recorde não pode ser atribuído a uma única causa.

Há, porém, um fator que aumenta a pressão sobre praticamente qualquer companhia muito endividada: o custo elevado do  crédito. Empresas que precisam refinanciar bilhões de reais sentem os efeitos dos juros altos principalmente quando dívidas vencem e precisam ser renovadas. Se a geração de caixa não acompanha o aumento das despesas financeiras, o espaço para refinanciamento diminui e a reestruturação passa a ser uma alternativa para evitar uma crise de liquidez.

Propriedade intelectual

O recorde de mais de R$ 180 bilhões, portanto, é mais relevante do que a situação isolada da Braskem. Ele revela que um volume sem precedentes de passivos  empresariais chegou simultaneamente aos mecanismos formais de recuperação. E quando grandes companhias de petroquímica, varejo, indústria e outros segmentos precisam renegociar dezenas de bilhões de reais ao mesmo tempo, o sinal de alerta deixa de estar restrito aos balanços dessas empresas e alcança bancos, fornecedores, investidores, trabalhadores e toda a cadeia de crédito da economia brasileira.