Consórcio ganha espaço no planejamento financeiro
O consórcio vem deixando de ser percebido apenas como uma forma de comprar imóveis, veículos ou outros bens de maior valor. Em um cenário de juros elevados e maior atenção ao orçamento familiar, a modalidade passou a aparecer com mais frequência nas estratégias de planejamento financeiro de médio e longo prazo.
A mudança ocorre em meio ao crescimento do setor. Em 2025, o Sistema de Consórcios registrou 5,16 milhões de novas adesões, alta de 15% em relação ao ano anterior, segundo dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC). No mesmo período, os créditos comercializados ultrapassaram R$ 500 bilhões pela primeira vez, enquanto o número de participantes ativos chegou a 12,76 milhões em dezembro.
Além de indicar expansão do setor, os números são interpretados por especialistas como reflexo de uma mudança no comportamento financeiro. Parte dos consumidores passou a avaliar o consórcio não apenas pelo bem a ser adquirido, mas pela possibilidade de organizar uma compra futura sem recorrer ao crédito tradicional. A ausência de juros, embora acompanhada de taxas administrativas e regras contratuais próprias, é um dos fatores que ajudam a explicar esse reposicionamento.
Para Emerson Almeida, especialista em planejamento patrimonial e CEO da Mestre do Consórcio, a transformação está ligada ao amadurecimento financeiro de diferentes perfis de consumidores. "O consórcio deixou de ser uma alternativa para quem não consegue financiamento. Hoje ele é uma escolha estratégica de quem quer organizar o crescimento patrimonial com previsibilidade e sem pagar juros", afirma.
Uso da carta de crédito se diversifica
A ampliação do uso da modalidade está relacionada à flexibilidade da carta de crédito. Dependendo do tipo de contrato, o recurso pode ser usado para compra de imóveis novos ou usados, construção, reforma, aquisição de veículos, equipamentos, serviços e até quitação de financiamento imobiliário.
Essa variedade de aplicações tem contribuído para afastar a ideia de que o consórcio se limita à compra de um bem específico. No segmento de serviços, por exemplo, os créditos comercializados chegaram a R$ 1,13 bilhão em 2025, com crescimento de 26,1% ante o ano anterior, conforme levantamento publicado pelo Consumidor Moderno. A demanda foi impulsionada por áreas como turismo, saúde, reformas e qualificação profissional.
A modalidade passou a ser considerada em decisões financeiras que envolvem planejamento, prazo e capacidade de poupança. Para famílias que pretendem reformar um imóvel, empreendedores que buscam equipamentos ou profissionais que planejam investir em formação, a carta de crédito é analisada como instrumento de organização do objetivo financeiro.
Ainda assim, especialistas ressaltam que o consórcio exige avaliação prévia. Como a contemplação pode ocorrer por sorteio ou lance, a modalidade tende a fazer mais sentido quando o consumidor não depende do crédito de forma imediata. O planejamento, nesse caso, é parte central da decisão.
Perfil dos participantes passa por mudança
O crescimento do setor também tem sido acompanhado pela diversificação do público. Além de consumidores em busca da casa própria, o consórcio passou a atrair jovens profissionais, empreendedores e investidores interessados em estruturar patrimônio sem comprometer toda a liquidez de uma só vez.
No segmento imobiliário, a ABAC apontou crescimento de 36% na venda de cotas em 2025. Em novembro, havia 2,83 milhões de participantes ativos nessa modalidade, alta de 34,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo informações publicadas pelo Jornal Empresas & Negócios. A possibilidade de combinar consórcio e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em estratégias de lance, quitação ou complementação de crédito aparece entre os fatores associados ao uso da modalidade no planejamento patrimonial.
Segundo o CEO da Mestre do Consórcio, essa mudança reflete uma nova relação com o crédito e com a formação de patrimônio. "O investidor mais jovem pensa diferente. Ele quer crescer de forma organizada, sem comprometer toda a liquidez de uma vez", pontua. Para ele, a previsibilidade das parcelas e o acesso programado a ativos reais ajudam a explicar a adesão de novos perfis.
Planejamento define resultado da estratégia
Apesar da expansão, o consórcio não elimina a necessidade de análise financeira. A escolha da carta, o valor da parcela, o prazo do grupo, as taxas cobradas e as possibilidades de lance precisam ser avaliados antes da adesão. Sem essa análise, a modalidade pode deixar de funcionar como ferramenta de planejamento e se transformar apenas em mais um compromisso mensal no orçamento.
A lógica da modalidade favorece objetivos de médio e longo prazo. O participante contribui mensalmente até a contemplação e, quando recebe a carta de crédito, pode direcionar o recurso ao objetivo definido. Esse funcionamento exige disciplina e clareza sobre a finalidade do contrato.
Para Emerson, a diferença entre uma contratação eficiente e uma adesão pouco planejada está na definição do objetivo. "A carta de crédito é o destino, mas o caminho até ela precisa ser bem estruturado. Quem entra no consórcio com um objetivo claro, entende as estratégias de lance disponíveis e sabe como usar o crédito quando for contemplado, obtém resultados completamente diferentes de quem entra sem planejamento", diz.
Setor projeta avanço em 2026
A ABAC projeta crescimento de até 11% para o Sistema de Consórcios em 2026, de acordo com matéria institucional da entidade com dados de dezembro de 2025. A expectativa se apoia, segundo a ABAC, na continuidade do crescimento do setor, mesmo em conjunturas econômicas desfavoráveis, e na maior conscientização do brasileiro sobre planejamento financeiro.
Nesse contexto, o consórcio tende a permanecer em evidência nas discussões sobre planejamento financeiro. A modalidade não substitui a análise individual de renda, prazo e necessidade de crédito, mas ganha espaço como alternativa para quem consegue programar objetivos e esperar pela contemplação.
O avanço do setor indica que o consórcio passou a ocupar um papel mais amplo do que o tradicional uso para compra parcelada. Ao ser incorporada a estratégias de organização financeira, a modalidade passa a ser analisada como parte de decisões mais amplas sobre consumo e patrimônio.

