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Real acumula perda de mais de 80% frente ao dólar

A trajetória de perda de valor do real diante do dólar voltou ao centro do debate econômico depois que novos levantamentos quantificaram o tamanho da erosão da moeda nacional. Desde a criação do Plano Real, em 1994, a divisa brasileira acumula desvalorização superior a 80% ante a moeda norte-americana, movimento que se estende por mais de três décadas e ganha novos contornos com o câmbio novamente próximo de R$ 5,14 em agosto de 2026.

Um estudo do economista-chefe da Austin Rating, elaborado a pedido do Poder360 a partir da Ptax calculada pelo Banco Central, mostra que a moeda brasileira perdeu poder de compra em ritmo cerca de seis vezes superior ao do dólar desde julho de 1994. No intervalo, o IPCA acumulou alta de 775%, enquanto o índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos avançou 122%, diferença que ajuda a explicar a pressão estrutural sobre o câmbio ao longo do tempo.

A perda de valor interno da moeda também aparece em ferramentas oficiais. Com base na calculadora do cidadão do Banco Central, seria necessário um valor várias vezes superior ao de 1994 para preservar hoje o mesmo poder de compra de R$ 1 no lançamento do plano. O cálculo isola a inflação doméstica e ajuda a dimensionar por que a diferença de preços entre os dois países se traduz, ao longo das décadas, em uma moeda estruturalmente mais fraca no comparativo internacional.

O ambiente monetário atual também compõe o cenário. Em agosto de 2026, o Comitê de Política Monetária do Banco Central definiu a taxa Selic em 14% ao ano, patamar que influencia a atração de capital externo e a dinâmica da cotação. Ainda assim, a desvalorização cambial não ocorre em linha reta: existem anos de alta expressiva do dólar, períodos de estabilidade e intervalos em que o real se valoriza, o que costuma turvar a leitura da tendência de prazo mais amplo. Em outubro de 2020, por exemplo, a cotação chegou a superar R$ 5,70, para depois recuar em ciclos seguintes, comportamento que ilustra a oscilação típica do regime de câmbio flutuante adotado no país.

Para o economista Bruno Corano, a discussão sobre patamares elevados do câmbio precisa separar a variação nominal da variação percentual. "O número de R$ 10 assusta porque parece distante das cotações às quais o brasileiro se habituou, mas em termos percentuais a distância é menor do que aparenta. Partindo de R$ 5, o dólar precisa avançar 100% para dobrar, movimento que a história do real já registrou em outros ciclos", afirma.

Corano observa que o impacto mais relevante dessa tendência aparece na formação e na preservação do patrimônio. Um conjunto de ativos pode crescer quando medido em reais e, ao mesmo tempo, perder valor relativo quando convertido para uma moeda mais forte. Esse efeito costuma ficar menos evidente enquanto patrimônio, renda e despesas estão concentrados no Brasil, mas aparece com clareza quando entram na conta imóveis no exterior, cursos internacionais, viagens, produtos importados ou qualquer objetivo cujo preço esteja ligado ao dólar.

O especialista pondera que uma estratégia de longo prazo não deveria depender da tentativa de adivinhar o mês ou o ano em que o dólar atingirá determinada cotação. "A questão central é entender o que acontece com o poder de compra de um patrimônio concentrado em reais durante um processo que já se desenha há três décadas. Para quem está construindo riqueza para os próximos 20 ou 30 anos, esse risco precisa entrar na conta", avalia Corano.

Diversos fatores atuam sobre o câmbio no curto prazo. Juros elevados tendem a atrair capital estrangeiro, mudanças na política monetária dos Estados Unidos alteram fluxos globais, oscilações das commodities afetam a entrada de divisas e momentos de maior apetite por risco favorecem moedas emergentes. Essa combinação produz movimentos de valorização e de queda que podem durar meses ou anos, enquanto a construção de patrimônio normalmente atravessa vários desses ciclos.

Diante desse cenário, Corano recomenda que a diversificação internacional faça parte do planejamento patrimonial de todos os investidores brasileiros. "A proporção depende do perfil e dos objetivos de cada um, mas diminuir a dependência do "real" e dos riscos domésticos é essencial. Para isso, o dólar americano é, de longe, a melhor opção. Assim como manter uma parte do dinheiro fora do país, montar uma carteira que performe bem ao longo do tempo é obrigatório", declara.

É essa visão de diversificação global e preservação patrimonial que também orienta o trabalho desenvolvido pela Corano Capital, com estratégias voltadas a investidores que buscam estruturar e proteger seu patrimônio em diferentes mercados e moedas ao longo do tempo.

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