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EUA cancelam participação em exercício militar com a Marinha do Brasil e aprofundam crise com governo Lula

A crise diplomática entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump ganhou um novo capítulo nesta semana, com a decisão dos Estados Unidos de cancelar sua participação na Operação Formosa, principal exercício militar da Marinha do Brasil. O gesto é visto por autoridades brasileiras como um sinal claro de distanciamento estratégico, após semanas de tensões causadas por sanções americanas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Realizada anualmente no entorno do município de Formosa (GO), a operação mobiliza cerca de 2.000 militares, mais de 100 viaturas e oito helicópteros, e é tradicionalmente acompanhada por tropas estrangeiras, em especial de países parceiros como os Estados Unidos. Desde 2023, os fuzileiros navais americanos participavam do exercício com uma delegação ativa — no ano passado, com 56 militares integrados às manobras brasileiras.

Este ano, no entanto, o convite da Marinha brasileira foi ignorado. Três fontes envolvidas na organização da Operação Formosa confirmaram à reportagem que não houve resposta oficial do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, que já havia demonstrado interesse preliminar em ampliar sua presença. A China, que participou da edição anterior ao lado dos americanos, também comunicou que não enviará tropas em 2025.

Internamente, o Ministério da Defesa classifica a ausência americana como um dos sinais mais preocupantes da escalada de atritos com Washington, já que o setor militar vinha sendo uma das poucas áreas de estabilidade institucional entre os dois países.

Fontes da Defesa dizem que há desconforto crescente nos EUA com o alinhamento geopolítico do governo Lula à China, sobretudo após a decisão brasileira de enviar um general para atuar como adido militar em Pequim — medida inédita que ampliou o alcance da cooperação sino-brasileira no plano castrense.

Outro fator que pesa é o mal-estar crescente entre Washington e o Supremo Tribunal Federal, após os EUA sancionarem Alexandre de Moraes por supostas violações de direitos humanos na condução de processos ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O governo Trump classificou a atuação do Judiciário brasileiro como “antidemocrática” e cassou os vistos de Moraes e outros magistrados.

Há também divisão dentro do próprio governo Lula. Assessores próximos ao presidente defenderam, segundo apuração da Folha, que não seria apropriado manter manobras militares conjuntas com uma nação que aplica sanções unilaterais ao Brasil. A recomendação foi levada ao Ministério da Defesa, embora não tenha se concretizado em veto oficial à participação americana.

Embora a ausência dos EUA em Formosa seja grave, ela ainda não representa um rompimento total. O Exército mantém o cronograma da Operação CORE 2025, prevista para novembro, em conjunto com militares americanos, com foco em padronização de procedimentos e missões de paz. Também houve participação americana no Exercício Tápio, em julho, promovido pela Força Aérea em Campo Grande (MS).

Ainda assim, analistas e oficiais de alta patente reconhecem que o gesto de se retirar de Formosa não é apenas operacional, mas político, e sinaliza que os EUA estão dispostos a reavaliar até os pilares da parceria militar com o Brasil caso as tensões institucionais persistam.

A decisão ocorre semanas após o Southcom (Comando Sul dos EUA) cancelar unilateralmente a Conferência Espacial das Américas, que seria realizada em Brasília com apoio da Força Aérea Brasileira, aprofundando a percepção de retirada gradual dos EUA de eventos militares conjuntos com o Brasil.